Perda de massa muscular com análogos de GLP-1: o que mostram os estudos

Medicamentos da classe dos análogos de GLP-1, como a semaglutida, e os agonistas duplos, como a tirzepatida, passaram a ocupar um lugar importante no tratamento da obesidade. Em ensaios clínicos de grande porte, esses fármacos produziram reduções de peso expressivas quando comparados ao placebo [1]. Junto com esse avanço, surgiu uma pergunta que vem recebendo cada vez mais atenção dos pesquisadores: quanto do peso perdido corresponde a gordura e quanto corresponde a músculo?
A questão é relevante porque a massa muscular não serve apenas para movimentar o corpo. Ela participa do controle da glicose, da sustentação das articulações, do equilíbrio e da autonomia no dia a dia, sobretudo com o avanço da idade. Este artigo resume o que as publicações científicas recentes mostram sobre o tema, incluindo os pontos em que ainda há incerteza.
Por que se perde massa magra ao emagrecer
Qualquer perda de peso relevante, seja por dieta, cirurgia bariátrica ou medicamentos, costuma envolver redução de gordura e também de massa magra. A chamada "massa magra" é um conceito mais amplo do que músculo: inclui músculos, órgãos, água corporal e outros tecidos que não são gordura. Por isso, os exames de composição corporal usados nos estudos, como a densitometria por DXA, medem massa magra, e não exatamente massa muscular.
Uma parte dessa redução é esperada. Um corpo mais leve precisa de menos estrutura para sustentá-lo, e parte das alterações pode representar uma adaptação ao novo peso, e não necessariamente uma perda de função [4]. A preocupação surge quando a perda de massa magra é grande, quando ocorre em pessoas que já têm pouca reserva muscular ou quando vem acompanhada de queda de força e de desempenho físico.
O que os estudos com semaglutida e tirzepatida mostram
Proporção entre gordura e massa magra
Uma análise do estudo SURMOUNT-1, que avaliou a tirzepatida em adultos com obesidade ou sobrepeso, examinou a composição corporal por DXA em um subgrupo de participantes. Após 72 semanas, o grupo tratado apresentou redução média de 21,3% do peso, de 33,9% da massa de gordura e de 10,9% da massa magra, contra 5,3%, 8,2% e 2,6%, respectivamente, no grupo placebo. Os autores estimaram que cerca de 75% do peso perdido correspondeu a gordura e cerca de 25% a massa magra [2].
Uma revisão publicada em 2024 sobre terapias baseadas em GLP-1 descreve um cenário mais heterogêneo: em alguns estudos, a massa magra representou entre 40% e 60% do peso total perdido, enquanto em outros essa proporção foi de aproximadamente 15% ou menos [4]. Essa variação reflete diferenças entre populações estudadas, métodos de medida e duração do acompanhamento.
O que dizem as revisões mais recentes
Uma revisão de especialistas publicada na revista Obesity Reviews destacou que, em ensaios com duração de 68 a 72 semanas, participantes perderam 10% ou mais de sua massa muscular, e discutiu estratégias para reduzir essa perda [3]. Em 2025, uma revisão sistemática com metanálise em rede reuniu ensaios clínicos randomizados para comparar os efeitos dos agonistas do receptor de GLP-1 e dos coagonistas sobre a composição corporal [7], o que mostra que a composição corporal passou a ser um desfecho cada vez mais estudado nesse campo.
A perda de massa magra é clinicamente relevante?
Aqui as evidências ainda não são conclusivas. Em um artigo de opinião publicado no JAMA, pesquisadores da área de metabolismo questionaram se a redução de massa muscular que acompanha a perda de peso tem, de fato, relevância clínica para a maioria das pessoas, já que essa redução costuma acompanhar a diminuição do próprio peso corporal. Os autores ressaltam, porém, que faltam dados em grupos mais vulneráveis, como idosos e pessoas que já apresentam baixa massa muscular [5].
A revisão de 2024 segue em linha semelhante ao sugerir que as alterações musculares observadas com essas medicações parecem ser, ao menos em parte, adaptativas [4]. Ainda assim, a maior parte dos estudos não foi desenhada para avaliar força, quedas, fraturas ou capacidade funcional a longo prazo. Por isso, a pergunta sobre o impacto real na saúde segue em aberto.
Quem merece atenção especial
Alguns perfis de pacientes parecem ter maior risco de consequências quando há perda de massa magra durante o emagrecimento:
pessoas acima de 60 a 65 anos, que naturalmente perdem músculo com o envelhecimento;
pacientes com sarcopenia prévia ou com a chamada obesidade sarcopênica, situação em que o excesso de gordura coexiste com pouca massa e força muscular;
pessoas com baixa ingestão alimentar durante o tratamento, já que esses medicamentos reduzem o apetite;
pacientes sedentários ou com limitações para a prática de atividade física;
pessoas com doenças crônicas que já afetam a musculatura.
Nesses casos, a avaliação individualizada antes e durante o tratamento ganha ainda mais importância.
Estratégias estudadas para preservar a musculatura
As publicações revisadas convergem em alguns pontos. Uma orientação conjunta publicada em 2025 por quatro sociedades norte-americanas ligadas à medicina do estilo de vida, à nutrição e à obesidade enfatiza que o uso dessas medicações deve vir acompanhado de atenção à qualidade da alimentação, à ingestão adequada de proteínas e micronutrientes e à prática de atividade física, com acompanhamento multiprofissional [6].
Entre as medidas mais discutidas na literatura estão [3,4,6]:
avaliação nutricional antes do início do tratamento e ao longo dele;
atenção à ingestão de proteínas, distribuída ao longo do dia, de acordo com a orientação de um profissional;
treinamento de força (exercícios resistidos), considerado por especialistas uma das principais ferramentas não farmacológicas para estimular a manutenção muscular;
monitoramento da composição corporal e, quando possível, de medidas de força e desempenho físico;
prevenção de deficiências de vitaminas e minerais, que podem surgir com a redução do volume alimentar.
Também estão em pesquisa medicamentos voltados especificamente à preservação muscular durante o emagrecimento, mas ainda não há dados suficientes para recomendá-los na prática clínica [3]. As necessidades de cada pessoa variam conforme idade, condição clínica e rotina, e quantidades de proteína ou eventuais suplementos devem ser definidos em consulta, e não por conta própria.
Conclusão
Os análogos de GLP-1 e os agonistas duplos representam um avanço no tratamento da obesidade, e a maior parte do peso perdido com essas medicações corresponde a gordura. Ainda assim, os estudos mostram que uma parcela da perda envolve massa magra, em proporções que variam entre as pesquisas. O significado clínico dessa perda ainda está em discussão e parece ser mais relevante em idosos e em pessoas com pouca reserva muscular.
Na prática, as evidências disponíveis indicam que o tratamento farmacológico da obesidade funciona melhor quando integrado a uma abordagem mais ampla, que inclua avaliação nutricional, alimentação adequada, exercícios de força e acompanhamento médico regular. Novos estudos com desfechos funcionais de longo prazo devem ajudar a esclarecer as dúvidas que ainda permanecem.
Referências
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Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica. Dr. Elias Mansur – CRM-PR 31043
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