Nutrição no paciente oncológico: o que mostram as evidências científicas recentes

Receber o diagnóstico de câncer costuma trazer muitas dúvidas sobre a alimentação. O que comer durante a quimioterapia? Vale a pena usar suplementos? Perder peso é esperado? Essas perguntas são legítimas e merecem respostas baseadas em evidências, e não em promessas. Neste artigo, reunimos o que diretrizes internacionais e estudos publicados nos últimos anos mostram sobre o papel da nutrição durante o tratamento oncológico, incluindo os pontos em que a ciência ainda não oferece respostas definitivas.
Por que a nutrição importa durante o tratamento do câncer
O câncer e os tratamentos oncológicos podem alterar o apetite, o paladar, a digestão e o próprio metabolismo do organismo. Náuseas, feridas na boca, alterações intestinais e cansaço frequentemente reduzem a ingestão de alimentos. Ao mesmo tempo, a doença pode provocar um estado inflamatório que favorece a perda de massa muscular, mesmo quando a pessoa ainda consegue se alimentar.
Quando essa perda de peso e de músculo é persistente e não se corrige apenas com o aumento da alimentação, fala-se em caquexia associada ao câncer, uma síndrome reconhecida pelas sociedades médicas internacionais [2]. A desnutrição e a caquexia estão associadas a pior tolerância ao tratamento, maior fadiga e pior qualidade de vida. Por isso, a Sociedade Europeia de Nutrição Clínica e Metabolismo (ESPEN) publicou uma diretriz prática com 43 recomendações para o manejo nutricional e metabólico de pessoas com câncer, que começam justamente pela avaliação do estado nutricional [1].
Rastreamento nutricional: identificar o risco cedo
Um dos pontos de maior consenso entre as diretrizes é a importância de identificar o risco nutricional antes que a perda de peso e de músculo se torne avançada. A diretriz da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO) sobre caquexia recomenda o rastreamento nutricional padronizado, em intervalos regulares, com instrumentos validados, para todas as pessoas em tratamento oncológico e com expectativa de vida de pelo menos alguns meses [2]. A mesma diretriz recomenda que o suporte nutricional, incluindo nutrição enteral ou parenteral quando necessário, seja considerado nesses pacientes [2].
Na prática, isso significa acompanhar periodicamente o peso, a ingestão alimentar, os sintomas que atrapalham a alimentação e, sempre que possível, a composição corporal e a força muscular. O peso isolado pode enganar: uma pessoa com sobrepeso pode estar perdendo massa muscular sem que isso fique evidente na balança.
O que mostram os estudos recentes
Suporte nutricional individualizado no hospital
Uma análise secundária do ensaio clínico randomizado EFFORT avaliou 506 pacientes com câncer internados e com risco nutricional aumentado [3]. Cerca de metade recebeu suporte nutricional individualizado durante a internação; a outra metade recebeu a alimentação hospitalar habitual, sem suporte nutricional específico. Em 30 dias, a mortalidade foi de 14,1% no grupo com suporte nutricional e de 19,9% no grupo controle, uma diferença estatisticamente significativa. Os autores também observaram melhora em desfechos funcionais e de qualidade de vida.
Os resultados, porém, devem ser lidos com cautela. Trata-se de uma análise de subgrupo, sem cegamento, e a diferença de mortalidade em 180 dias não foi estatisticamente significativa [3]. Ainda assim, o estudo reforça que avaliar e tratar a desnutrição faz parte do cuidado oncológico de qualidade.
Ômega-3: resultados modestos e heterogêneos
Os ácidos graxos ômega-3 são estudados há anos por seu possível efeito anti-inflamatório no contexto da caquexia. Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2024 reuniu 33 ensaios clínicos randomizados, com 2.047 participantes com câncer [4]. A suplementação esteve associada a um aumento do peso corporal, mas, na análise principal, não mostrou efeito estatisticamente significativo sobre a massa magra, a massa de gordura ou o índice de massa corporal.
É importante destacar que a certeza da evidência foi classificada como baixa ou muito baixa, com grande variação entre os estudos, e os próprios autores apontam a necessidade de ensaios maiores [4]. Em outras palavras, o ômega-3 pode ter um papel em situações específicas, mas não deve ser visto como solução para a perda de massa muscular, e seu uso precisa ser avaliado individualmente pela equipe médica.
Abordagem multimodal: nutrição, exercício e controle da inflamação
Como a caquexia tem múltiplas causas, pesquisadores têm testado intervenções combinadas. O ensaio clínico randomizado MENAC incluiu 212 pessoas com câncer de pulmão ou de pâncreas avançado em quimioterapia, em 17 centros de quatro países [5]. O grupo que recebeu uma intervenção multimodal, com componentes de nutrição, exercícios físicos e medicação anti-inflamatória, manteve o peso estável em seis semanas, enquanto o grupo de cuidado padrão perdeu, em média, cerca de 1 kg.
Por outro lado, não houve diferença entre os grupos na massa muscular nem no nível de atividade física [5]. Esses dados foram apresentados em congresso científico em 2024 e ainda devem ser interpretados como preliminares até a publicação completa do estudo. Eles sugerem que a combinação de estratégias pode ajudar a estabilizar o peso, mas preservar o músculo continua sendo um desafio.
O que essas evidências significam na prática
Em conjunto, os estudos indicam alguns princípios gerais:
a avaliação nutricional deve começar cedo e ser repetida ao longo do tratamento [1,2];
o plano alimentar precisa ser individualizado, considerando o tipo de câncer, o tratamento em curso, os sintomas e as preferências de cada pessoa [1,3];
suplementos podem ter papel em situações específicas, mas os benefícios demonstrados até agora são modestos e variáveis [4];
atividade física orientada por profissionais pode fazer parte de uma estratégia mais ampla, sempre adaptada à condição clínica [5].
Cuidado com dietas restritivas e suplementos por conta própria
Durante o tratamento oncológico, é comum receber recomendações de dietas "anticâncer", jejuns prolongados ou suplementos vendidos como capazes de combater a doença. Dietas muito restritivas podem agravar a perda de peso e de massa muscular justamente quando o organismo mais precisa de energia e proteína. Além disso, alguns suplementos e fitoterápicos podem interagir com a quimioterapia, a radioterapia ou outros medicamentos.
Por isso, qualquer mudança alimentar relevante ou uso de suplementos deve ser discutido com o oncologista e com o médico ou nutricionista que acompanha o paciente. A automedicação, mesmo com produtos considerados naturais, pode trazer riscos.
Nutrição como parte do cuidado integrado
A abordagem nutricional em oncologia tende a ser mais adequada quando integrada ao tratamento conduzido pela equipe oncológica, e não como alternativa a ele. No contexto da oncologia integrativa, o acompanhamento nutrológico busca apoiar a tolerância ao tratamento, preservar o estado nutricional e contribuir para a qualidade de vida, sempre em diálogo com o oncologista responsável e respeitando as evidências disponíveis.
Conclusão
A nutrição é um componente relevante do cuidado de quem enfrenta o câncer. Diretrizes internacionais recomendam o rastreamento nutricional regular e o suporte nutricional individualizado, e estudos recentes sugerem benefícios em desfechos como peso corporal e, em pacientes hospitalizados com risco nutricional, mortalidade em curto prazo. Ao mesmo tempo, as evidências sobre suplementos específicos e sobre a preservação da massa muscular ainda são limitadas. Cada caso exige avaliação individual por profissionais habilitados, em conjunto com a equipe oncológica.
Referências
Muscaritoli M, Arends J, Bachmann P, et al. ESPEN practical guideline: Clinical Nutrition in cancer. Clin Nutr. 2021;40(5):2898-2913. PMID: 33946039. DOI: 10.1016/j.clnu.2021.02.005
Arends J, Strasser F, Gonella S, et al. Cancer cachexia in adult patients: ESMO Clinical Practice Guidelines. ESMO Open. 2021;6(3):100092. PMID: 34144781. DOI: 10.1016/j.esmoop.2021.100092
Bargetzi L, Brack C, Herrmann J, et al. Nutritional support during the hospital stay reduces mortality in patients with different types of cancers: secondary analysis of a prospective randomized trial. Ann Oncol. 2021;32(8):1025-1033. PMID: 34022376. DOI: 10.1016/j.annonc.2021.05.793
Ghoreishy SM, Zeraattalab-Motlagh S, Amiri Khosroshahi R, et al. Dose-Dependent Impacts of Omega-3 Fatty Acids Supplementation on Anthropometric Variables in Patients With Cancer: Results From a Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Clinical Trials. Clin Nutr Res. 2024;13(3):186-200. PMID: 39165286. DOI: 10.7762/cnr.2024.13.3.186
Solheim TS, Laird BJA, Balstad TR, et al. Results from a randomised, open-label trial of a multimodal intervention (exercise, nutrition and anti-inflammatory medication) plus standard care versus standard care alone to attenuate cachexia in patients with advanced cancer undergoing chemotherapy [resumo de congresso, ASCO 2024]. J Clin Oncol. 2024;42(17_suppl):LBA12007. DOI: 10.1200/JCO.2024.42.17_suppl.LBA12007
Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica. Dr. Elias Mansur – CRM-PR 31043
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